O legado de Assis Reis (1926–2011), um dos principais nomes da arquitetura moderna na Bahia, ganhará espaço em Portugal. A Casa da Arquitectura vai incorporar ao seu arquivo o acervo completo do arquiteto, que desenvolveu grande parte de sua carreira em Salvador e contribuiu para transformar a paisagem urbana da capital baiana. A iniciativa ocorre no ano do centenário de seu nascimento, celebrado entre outubro de 2026 e outubro de 2027.

O conjunto reúne 3.079 itens, incluindo 2.427 desenhos, duas maquetes, fotografias, vídeos, documentos, textos, croquis e registros de conferências. O material permite conhecer diferentes etapas da trajetória profissional de Assis Reis, desde projetos construídos até estudos e propostas que não saíram do papel. Entre os trabalhos documentados estão edifícios residenciais, equipamentos públicos e intervenções urbanas.

Nascido em Aracaju, em 1926, Francisco de Assis Couto dos Reis se mudou ainda jovem para Salvador, cidade onde consolidou sua carreira. Formou-se em Arquitetura em 1957, pela então Universidade da Bahia, atual Universidade Federal da Bahia (UFBA), e, a partir de 1968, passou a atuar como professor da instituição.

Antes de estabelecer seu próprio escritório, trabalhou no Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade de Salvador (EPUCS) e colaborou com o arquiteto Diógenes Rebouças, uma das principais referências da arquitetura moderna baiana. A experiência contribuiu para sua atuação tanto na concepção de edifícios quanto no planejamento e na organização dos espaços urbanos. Ao longo da carreira, também colaborou com órgãos públicos e participou de projetos fora da Bahia.

Entre suas obras mais conhecidas está a sede da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), inaugurada na década de 1970 e considerada pelo próprio arquiteto um dos trabalhos mais importantes de sua trajetória. O edifício se destaca entre os projetos que ajudaram a definir a arquitetura moderna de Salvador naquele período.

A lista de obras inclui ainda o Solar das Mangueiras, de 1976, o Solar do Itaigara, de 1977, e o Centro Médico Albert Schweitzer, também conhecido como Centro Médico da Graça, projetado em 1967. Já entre os trabalhos institucionais de maior porte estão a sede do Tribunal de Justiça da Bahia e seu anexo, desenvolvidos entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000.

A atuação de Assis Reis também ultrapassou as fronteiras brasileiras. No fim da década de 1960, ele recebeu reconhecimento pelo projeto apresentado ao concurso nacional para o Pavilhão Brasileiro da Exposição Internacional de Osaka, no Japão. Em 1992, desenvolveu ainda o projeto do Pavilhão de Sevilha, na Espanha.

A maquete de Salvador

Um dos trabalhos mais singulares de Assis Reis foi o Modelo Reduzido da Cidade do Salvador, iniciado na década de 1970. Produzida na escala de 1:2.000, a maquete representa o território do município e se tornou uma importante ferramenta para compreender a organização urbana da capital.

O projeto foi desenvolvido em etapas entre 1973 e 1978 e envolveu uma equipe de arquitetos, técnicos, artesãos e estagiários. A representação passou por ampliações e continua sendo atualizada pela Prefeitura de Salvador, por meio da Fundação Mário Leal Ferreira. Em 2020, a maquete foi tombada pelo município como patrimônio cultural.

Na década de 1990, o arquiteto voltou sua atenção também para a requalificação de espaços públicos. Entre os projetos desenvolvidos em Salvador estão intervenções na Praça da Sé, na Praça da Inglaterra, no Passeio Público, no Largo dos Aflitos e em áreas como Santo Antônio Além do Carmo, Soledade e Lapinha.

Assis Reis também colaborou com o programa Favela-Bairro, no Rio de Janeiro, participando de projetos de urbanização, entre eles o do Morro do Andaraí. A experiência ampliou sua atuação para além dos edifícios e reforçou sua participação em iniciativas voltadas à transformação dos espaços urbanos.

Em reconhecimento ao conjunto de sua obra, recebeu, em 2008, o Colar de Ouro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), uma das principais distinções da arquitetura nacional.

A preservação de seu acervo pela Casa da Arquitectura permitirá reunir e conservar registros fundamentais para o estudo de sua produção. Os documentos ajudam a compreender não apenas as obras que chegaram a ser construídas, mas também os métodos de trabalho, as ideias e os projetos que marcaram a trajetória de um arquiteto cuja história profissional está profundamente ligada a Salvador e à arquitetura moderna na Bahia.